sábado. 23.10.2021 |
El tiempo
sábado. 23.10.2021
El tiempo

De como recuperar livros que desapareceram

Um bom amante de livros não os esquece tão facilmente. Aqueles que perdi, pensava eu definitivamente, aparecem gloriosos

DEVO DIZER-VOS que se trata de uma história verdadeira que aconteceu comigo e se terá passado certamente convosco. As pessoas que hoje vão nos cinquenta anos, sessenta e outros enta sabem que perderam livros que ao longo do tempo constituíram a sua biblioteca quando tinham quinze, dezasseis anos e mais uns dos que vieram logo a seguir. Penso que a década em que tivemos vinte anos talvez seja mesmo a que desenha a nossa personalidade estampada nos livros e que se reflete até hoje, com algumas variantes, bem-entendido. Entretanto, as bibliotecas pessoais foram alargando-se, engordando, vítimas do sabor do tempo e da moda. E os poetas que nos abandonaram vendendo-se ao status quo? E os nossos autores preferidos que, entretanto, se renderam aos prémios literários? Quantos destes livros foram deitados ao lixo e substituídos por outros mais modernos. Agora vejam: para além da contínua substituição dos livros, dos empréstimos a alguns a quem perdemos o rasto, houve também mudanças de casas e livros perdidos, inundações, divórcios, separações litigiosas ou compreensivas, embora não tanto que impedisse o excônjuge de dizer "Estes são meus!" e as bibliotecas continuaram a transformarem-se. Ora, um bom amante de livros não os esquece tão facilmente. Aqueles que perdi, pensava eu definitivamente, aparecem gloriosos, agora, nos alfarrabistas. Já passaram 40 e muitos anos e torna-se lógico que numa visita a um alfarrabista se encontram os livros da nossa juventude. Agora vem a história: há uns anos vendi parte da minha biblioteca para conseguir dinheiro para uma viagem a grande parte da Europa numa autocaravana. Devo dizer que escondido comerciante alguns de que não podia sequer pensar em separar-me. Mas a grande parte da poesia, do romance, dos livros de História, de Filosofia, Sociologia, Antropologia, de catálogos de arte, foram-se. O arrependimento veio logo a seguir, de alguns livros que deixei ir: Alguns do editor Vítor Silva Tavares, um de António Maria Lisboa, de Cesariny, de Nuno Júdice, de Mircea Eliade ou de Edgar Morin. Muitos. O que me acontece agora é reencontrar-me com eles nas lojas de livros antigos. Tenho recuperado muitos a preços proibitivos. Do que mais senti a falta, aquele que me fez chorar copiosamente a alma foi a minha venda criminosa de um livro do poeta surrealista Cesariny. Eram os Textos de afirmação e combate do Movimento Surrealista Mundial, uma resenha luminosa da poesia surrealista que se fez pelo mundo todo. Mas há uma semana, readquiri-o numa Feira do Livro. O preço era exorbitante: 175 euros, quando, com 22 anos, me custou uns 200 escudos que correspondem hoje a 1 euro. E assim tenho-me afastado paulatinamente das livrarias dos grandes espaços e enfio-me em alfarrabistas procurando o meu passado nos livros que possuí. Cada vez que reponho um livro na minha estante, sinto-me mais velho, mas incomparavelmente mais feliz. E mais falido, também. Mereço-o.

De como recuperar livros que desapareceram
Comentarios